Branquitude: a alienação

Eu estou aprendendo sobre o significado da branquitude. Sim, vergonhoso aprender isso apenas aos 35 (ou quase 35), mas esse é o tempo que precisei para sair na minha redoma de brasileira-branca. Digo isso apenas para deixar claro que minhas elucidações sobre o assunto podem mudar. Aliás gosto de pensar que mesmo diante dos assuntos que tenho mais experiência ainda posso mudar de opinião. Enfim, é um pedido de desculpas em antemão –  o que é algo bem branco de se fazer e poder se fazer.

Eu ainda não contei porque decidi fazer esse blog. Talvez porque não seja ainda tão claro para mim também. Mas diria que é uma tentativa de autoconhecimento, que por algum motivo, ainda não compreendido por mim, passa pelo compartilhamento (seria ego?).

Me descobri como não negra muito cedo. Nem me lembro na realidade, mas minha mãe conta que cheguei para a mãe de uma das minhas melhores amigas, Danuza e perguntei: “porque a Danuza e você não tem a mesma cor que eu?”.

Identifiquei o privilégio branco bem mais tarde: levei meus sobrinhos na casa de um amigo, ao entrar com o carro na garagem dele as crianças começaram a chorar. Eu não entendi. Ele me disse: “Elas já viram um negro antes? Talvez seja melhor você dar uma volta no quarteirão com elas e conversar antes de voltar.”. Eu nem tinha pensando que seria um questão de pele até ele falar. Isso não significa que não vejo cor, significa que não enxergo meu privilégio de ser lida como branca.

Me descobri como branca muito mais tarde que isso. Aos 30: um grupo de americanos e um inglês me disse que eu não era branca. Clássico! Brasileiro, branco, classe média se deparando com o não pertencimento ao contato com gringos.

Não é só do privilégio de leitura branca que vivo, também sou bem “padrãozinho”, não sou gorda, sou lida como bonita (lida sim, porque blz é um conceito cultural inserido no espaço-tempo), lida como classe média, média-alta mesmo nos meus períodos mais pobres, e mesmo deixando meus pêlos crescerem como quase não os tenho continuo dentro do “aceitável”. Mas tudo isso é matéria para outro texto.

Daí vim pra Europa. MigaMigrei. Antes de sair do Brasil pensei que vir pra cá poderia me alienar, ou me oferecer oportunidade para maiores reflexões. Daí o blog.

Sabe que por enquanto o que conclui é que a alienação é uma possibilidade muito maior do que imaginava. Confesso que já, em mais de uma ocasião, fiz julgamento de valores dos meus amigos europeus e americanos. Como podem ser tão conveniente com seu papel no contexto mundial? Bem, é bem fácil quando se está nessa redoma chamada Primeiro Mundo. E quanta hipocrisia a minha! Afinal também me alienava por detrás das categorias branca, classe média, bonita. Com certeza os indígenas e negros viam como eu sempre fui também conveniente aos meus privilégios. É importante entender que para que os meus, os seus e os nossos privilégios existam é necessário que permitimos que diferença de classe, raça e econômica existam. Não existem privilégios sem marginalização. Então não é apenas uma questão histórica (mas é tb).

Me peguei identificando que meus únicos “problemas” atualmente são: ainda não encontrei uma tinta pro meu cabelo e tenho que estocar comida para o fds já que o mercado tem horário “restritos” aqui (em relação ao que eu estava acostumada em São Paulo). Estar em uma sociedade onde pessoas na rua pedindo dinheiro não é uma realidade, que o transporte público não é lotado, onde você não tem medo de andar de bike, onde vc não tem medo de assalto, ou furto, onde vc não tem razão de ter medo de policiais e autoridades (pq ainda tenho medo deles), onde não somente não é notícia que um homem negro e sua família foram abordados por militares e que o homem foi ASSASSINADO com 80 TIROS de FUZIL como soa mais como uma cena passada em algum lugar fictício. É; tudo isso é muito gostoso e muito alienador.

Agora quem sou eu nesse novo cenário? Quais serão minhas escolhas?

Para saber mais sobre:

Papo de preta, muro pequeno, Afro e afins, Katu Mirin, Pretinho mais que básico, Isabela Reis, Lili Schwarcz, Ana Paula Xongani

5 thoughts on “Branquitude: a alienação

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