As pauzacas


Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. Ele me lembra de quando a mídia criticava a falta de concordância verbal em sua fala. Eu me lembro da habilidade oratória da Dilma. Daí me pego lembrando do youtube que vi à alguns dias, no O Mundo Segundo Ana Roxo. Elas contam uma história, um pessoa reclama da casa pequena e um sábio diz, vá viver nessa casa com uma cabra por um mês. Ele assim o faz. Depois de um mês, quando se livra da cabra, sente que a casa tem um bom tamanho. Penso, no nosso atual presidente (que não me representa) e concluo que Lula e Dilma nunca foram tão maravilhosos em seus discursos como agora.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. Em minha mente vem a carta aberta na Science de cientistas brasileiros denunciando a situação da ciência no Brasil. Penso que queria ter assinado esta carta. Me perguntou quem são esses cientistas. Como escolheram quais cientistas poderiam ter voz e porque outros tantos (incluindo eu) não são considerados importante o suficiente para assinar uma carta que implora por ajuda. Implora. Sim, implora.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. E penso que quero ler a carta aberta na Science assinada por 604 cientista europeus (e duas ONG brasileiras) pedindo para que a Europa não consuma produtos que são responsáveis pelo desmatamento. E me pergunto se o europeu que tem saído às ruas em manifestações pelo aquecimento global, identifica qual é o papel do suco de laranja e do hambúrguer que ele come assim que a manifestação acaba. Não me lembro de ter visto nenhum cartaz durante as manifestações pedindo ajuda ao Brasil, ou à Moçambique. Não parecem identificar que mato, humano, capitalismo tá tudo interligado com a “causa”. Aliás, o que exatamente estas manifestações pedem? Agora tenho medo de movimento sem objetivo claro.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. E não me sai da cabeça a imagem da Tuíra Kaiapó defendendo sua cultura se fazendo ouvir. Faltam me palavras pra descrever o que sinto ao ver a cena. É inspirador. Não me calarás. É o que a cena grita a mim.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. Ele diz que devemos nos re-inventar. Re-inventar nosso sindicato. Nossa organização. E lutar para que não nos tire os direitos que conquistamos. Me pergunto, o que são das vítimas de Brumadinho? O que será das famílias dos quais os corpos nem sequer foram recuperados. O que será das famílias atingidas pelas enchentes no Rio? Da mãe negra que perde seu filho com 100 tiros de advertência? Ou 80 por engano. Quem mandou matar Mariele?

Presente. Semente.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. Ouço “povo brasileiro”. Penso nas amizades marcadas pela última eleição. Ouço “eu trabalho muito com o ódio”. E penso que talvez seja mentira. E percebo com certo espanto que dessa eleição não me sobrou o ódio, mas sim muita interrogação. Porque você ainda defende ele? Porque se exclui do grupo de iguais com pensamentos diferentes? Porque foge do confronto? (Quando na real nem há confronto). Porque ainda procura por um herói, um mito?

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. Não, ele não é meu candidato. Nem que ele pudesse. Mas porque não posso admirar sua trajetória? Porque tem que amar ou deixar? Ele é um líder.

Sento aqui, e assisto à entrevista com o Lula. E acredito que tem um papel maior do que posso medir. E menor do que a geração millennium gostaria.

Não, a revolução não é amanhã; mas ela está vindo.

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