Roubamos lhes as palavras e os deixamos sem voz

Eu ando querendo muito falar de “Síndrome de impostora/procrastinação/falta de capacidade de organizar/culpa”

Muito. Muito mesmo. Daí penso: vá trabalhar no artigo. E depois penso: caramba se for falar sobre isso não deveria dar uma estudada antes? Não! Isso é um blog, não uma revista científica! É o twitter da década de 2000, é o twitter dos que são a favor dos textões que, mas que não sabe direito como fazer uma thread!

Então, vou voltar a esses assuntos SIM! (E que fique claro que essa é uma frase pra mim mesma!)

Não vou procrastinar! Não vou achar que vou escrever em 15 minutos. Não vou achar que não tenho base para falar disso e agora: não vou me culpar por ainda não ter feito.

Mas antes, antes desses textos, eu vou falar de Madagascar. Vou fazer esse texto assim, rápido mesmo, não rápido no sentido de escrever em 15 minutos, mas sem digerir minhas impressões. Sim, há muito o que digerir! E ao mesmo tempo, menos. Cada viagem parece que me impacta menos (e isso abordo depois).

Enfim, algumas questões rápidas que em menos de 14 horas em terras africanas me apareceram. 

Pobreza. Ressalta aos olhos. Não tem como. Pensei em não falar disso, afinal não quero fomentar esteriótipos. Sou simpática ao ato de se incomodar com essa imagem associada à países sub-desenvolvidos. Mas hoje perdi as contas de quantas crianças menores de 5 anos mendigando eu ignorei. E a verdade é que não às ignorei apenas hoje. Ignoro-às todos os dias. Eu. E você. Cada dia que acordamos, cada decisão de compra que tomamos, telefone, roupa, comida, até ir dormir, ignoramos. Não somente ignoramos essas crianças aqui, mas também as que se encontram próximas de nós. Em Vienna há mendigos. Há poucos quilômetros de Viena há refugiados. A uma distância menor do que daqui ao Brasil há guerra. E no Brasil, há milhares de crianças sendo ignoradas.

Tana

Por isso a foto de destaque (telhado da escola com recado aos policiais) Foto que não é minha. Foto que não é de sites de fotos disponibilizadas para uso. Uma foto que copiei do twitter. Uma foto que esfrega na nossa cara:  ignoramos nossas crianças. Todos os dias. Ignoramos nossas crianças nas nossas decisões políticas, mesmo quando nossa decisão é ficar em cima do muro. Porque não existe encima nessa situação.

Mas essa, por mais triste que seja, não foi a única triste e real constatação do que já está na nossa cara todos os dias. Assim, tão presente, que ignoramos. Vir pra África, é entrar em contato com um passado roubado. E eu sei que dentro do meu privilégio branco-btasileiro que vive as influências africanas, mas escolhe a conveniência dessas vivências, tenho um relato limitado. Eu diria que um relato sem cicatriz. Contudo, me atrevo a dizer que ainda assim sou afetada, mesmo que escala infinitamente menor. 

Samba e pagode eram músicas de domingo onde cresci. Na esquina da minha casa. Um cruzamento. Do outro lado sertanejo. Era uma segregação. Sempre foi; não é? Racismo não “é coisa rara”. É coisa do dia a dia. Se você não percebe é simplesmente porque escolheu ignorar. Como ignora as crianças do começo dessa história. 

Não só de samba vive minha identidade. Samba como identidade só é mais um dos exemplos de afro-convinência da branquitude: quando quer ser identificar como brasileiro se referindo à dança, alegria, corpo bonito. Na real, não acho. Mas é. Não acho que seja um estereótipo no qual quero me encaixar (ou outro qualquer, sou um indivíduo), mas aparentemente isso vende. Vende roupas, maquilagens, vende depilações e vende corpos, mas não o corpo branco. Também há comida, vocabulário, o jeito de falar. A cultura negra esta na minha, e que sá em na de todos os brasileiros, apesar que pra muitos não tanto. Porque afinal negros são maioria. E sempre foram. Bem, indígenas foram maioria. Meu ponto: existimos porque eles estavam aqui. Sobrevivemos porque eles estiveram aqui. E eles mesmo acuados, mesmo proibidos, mesmo torturados, mesmo passando por atrocidades, resistiram e com eles, sua comida, suas crenças e nós também. Usamos, sua comida, suas crenças e suas palavras, mesmo que não nunca tenhamos lhe dados voz. Roubamos lhes as palavras e os deixamos sem voz.

Não morro pela cor da minha pele. E hoje, se estou onde estou, vindo de onde vim, é porque sou branca-brasileira. Ainda assim: clamo; porque de mim também roubaram meu passado. Apagaram a mão negra que cuidou, a mão negra que plantou e colheu. Apagaram a mão negra que lutou, que resistiu. Apagaram o passado negro, dos que aqui chegaram e dos seus antecessores. Todos enchem o peito pra falar da sua descendência europeia, mas nossa identificação africana nos foi roubada. Como a indígena. Marginalizada. Aqueles que podem, se escondem dela (a não ser quando é conveniente) e aqueles que não podem, porque a leitura pelo outro da sua pele não permite, sobrevivem e resistem. E assim todos perdemos a nossa história.

Por isso, andando por Madagascar, me identifico. Me identifico com a cor. Me identifico com o ritmo. Me identifico com a pobreza. 

E me pergunto, não seria Madagascar tão distante da África?  Mesmo sendo um país africano, tem uma grande descendência da Indonésia. Malagasy, sua língua, deriva de lá. A cor da pele, os instrumentos, entregam a África que chegou de barco de Moçambique. Os navios de Portugal aqui não aportaram para roubar vidas e almas, ainda assim, me reconheço em casa. Bem, Moçambique aparentemente teve grande papel na formação de ambos, Brazil e Madagascar.

Ontem comi maniçoba. Aqui Ravitoto.

Ravitoto.

Bem, esse texto ainda tem mais uma parte. A desigualdade. Desigualdade social, não é a mesma coisa de pobreza. Mas tem muita pobreza na desigualdade social. Aqui, tudo me lembrou meu Brasil de 20 anos atrás. O Brasil onde cresci. O Brasil que me eduquei por cota de sorteio no SESI – que nem foi uma escola tão boa assim. O Brasil, de carros velhos e maltratados nas ruas. E de repente um carrão. Um Brasil de muito mendigos e de ar condicionado. E me doeu o peito. Dessa vez, não porquê porque me vi na vida q vive até aqui, como olhando em um espelho, e também minhas decisões e suas consequências, em uma criança de 3 anos que me pedia a água que eu bebia, mas porque me transportou para o futuro. O futuro do Brasil. O futuro de um Brasil, que já mandou médicos embora e que está prestes a ter universidades fechadas e previdência privada. “Um Brasil acima de todos e Deus acima de tudo.” 

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