“Eu não ando só”

Carrego em mim a minha casa. Me sinto assim desde criança. E me sinto um pouco mal em dizer isso, porque fico parecendo aquelas branca classe média – que sou – que quer dar um sentido mítico para o seu ser; como se fosse alguém especial, como se fosse predestinada. E se generalizarmos a ideia de predestinação, não estaríamos então justificando o lugar de abuso que a “mãe preta” ocupa? 

Ninguém é espiritualmente destinado. Contudo, a crença oposta também é uma mentira: ninguém ocupa uma posição simplesmente porque merece; seja o grande empresário ou a mãe preta.

Nascemos, e não pedimos e não escolhemos. Não sei, mas talvez nem mesmo as religiões acreditem que seus espíritos escolham onde e como viver; enfim, desculpe aos religiosos se errei; também não tenho intenção de discutir sobre esta perspectiva. Apenas, não acredito que temos qualquer controle de onde nascemos, porém onde nascemos determina – e muito – quais escolhas poderemos fazer.

Então, sei que se sempre pude me senti assim, ou sempre pude fazer assado não é porque fui predestinada, mas também não é mérito meu.

Voltando, carrego minha casa comigo. Tenho boa auto-estima, sou segura. Gozado ao afirmar isso, tenho uma necessidade quase dolorida de me justificar. Tem os homens a mesma necessidade? Parece que estou me achando melhor que os demais, e que tenho que me retratar. Como se o fato de ter boa auto-estima fosse errado. Eu tava com vontade de comprar pedras preciosas em Madagascar…onde as condições ambientais e sociais de trabalho das áreas de exploração das pedras são muito abaixo do mínimo, e exatamente por isso (e alguns outros fatores) as pedras são baratas e exatamente por isso fico tentada em comprar. Pra isso eu devo me justificar, eu devo me retratar. Não por ter boa auto-estima! E sabe o que mais? Eu não sinto essa vontade em me retratar sobre a vontade de fazer parte de um sistema perverso e em pensar usar uma pedra pendurada em meu dedo que para estar ali muito sangue foi derramado: mulheres estupradas e/ou prostituídas, crianças abandonas, homens com doenças causada pelas conduções de trabalho no minério, assassinatos. Isso mostra quão errada é essa sociedade onde vivemos: onde uma mulher não pode se sentir bem com ela mesma, mas deve se sentir bem com pedras e outros bens, que causam horroridades para outros – e para ela.

Enfim, estou aqui novamente fugindo do tema do texto; na real nem lembro mais qual era.

Ah! Carrego minha casa comigo. Eu tenho essa sensação a muito tempo, mas nunca soube realmente o que significava. Dizia esse clichê (com a idade tenho obtido uma tendência a me identificar com clichês – ops, olha eu aqui com necessidade de me retratar ao escolher o uso de clichês, mas não ao usar esse computador com minerais do conflito que causa tanto horrores no mundo atual – para mais ver: aqui ) de forma a me identificar sim, mas sem compreender. Até meia hora atrás, quando minha chefe me disse que o português que trabalha no mesmo corredor veio aqui ontem e traduziu para ela os dizeres da “oração” de Ogum que mantenho na parede logo acima do meu computador. Claro que ele não fazia ideia do que era, mas ela encantada com a poesia me perguntou de que livro eu tinha retirado. Então, primeiramente contei sobre a oralidade, e de como é importante. De como africanos escravizados e indígenas utilizavam-a e de como isso se manteve na cultura do brasileiro, tendo este descendência direta ou não com estes povos. Depois, falei mais sobre como brasileiros são culturalmente e biologicamente mais descendentes de africanos escravizados e indígenas. Contei sobre os orixás.

“Que tenham olhos, e não me vejam”

E ao oralmente passar esses meus conhecimentos que não me foram passados na escola – e deviam, finalmente entendi o que significa carregar minha casa comigo. Interiores de São Paulo, São Paulo capital, interiores de Piauí, Maranhão, Suriname, EUA, Inglaterra, Áustria e Madagascar. Em todos esses lugares me senti sempre em casa, porque como diz meu pai conhecimento ninguém tira de você, e meu conhecimento o não “formal”, o não escrito, me faz quem eu sou. 

Eu não conheço rajada de vento/Mais poderosa que a minha paixão” 

“Sou como a haste fina/Qualquer brisa verga/Nenhuma espada corta

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