O patriarcado e a biologia

Recebi um texto para ler. Leíamos e comentaríamos no grupo de WhatsApp.

O texto era sobre culpa, e já no primeiro parágrafo, algo me chamou a atenção. Sabe quando incomoda? E mais, você mal sabe dizer o porquê? O que acendeu uma luz vermelha pode ser apenas algo irrelevante para você, mas foi a ideia de que o que causa o sentimento de culpa no indivíduo adulto seria a “educação ministrada”. Algo pairava no ar. Meu questionamento não é como uma crítica direta a ideia proposta no texto, mas a consciência coletiva que esse pensamento tem por trás.

Humanos são animais sociais, e a relação com os outros indivíduos é fundamental para nosso desenvolvimento. Foto: nappy.co

Como diriam os pesquisadores Vera Bussab e Fernando Ribeiro, somos biologicamente culturais. Em poucas palavras isso remete a termos evoluído para responder ao nosso ambiente cultural. Veja, é meio que claro quando dizemos por exemplo, que a mão sofreu uma pressão evolutiva para segurar objetos (uso o termo “meio que” porque estamos em uma época de terra-planistas e baixa – e de pouca qualidade – escolarização formal).

Conseguimos facilmente imaginar um cenário onde um hominídio  tem vantagens de sobrevivência e de reprodução porque possuem mão capazes em relação a indivíduo – ainda da mesma espécie, mas com uma mão sem habilidade finas. Portanto, parece que é fácil entender que as características físicas e materiais de um ambiente seja algo que se relacione com como nosso corpo vai reagir e evoluir.

Agora para animais que vivem em grupo e principalmente o humano, não somente o mundo físico tem influência, mas o mundo sócio-cultural. Cada vez mais fomos dependendo do outro indivíduo do grupo para sobreviver e reproduzir, precisamos de ajuda para plantar e colher, para caçar e criar nossos filhos. Dessa forma, o indivíduo que, por exemplo, fosse mais carismático tinha mais vantagem para sobreviver e reproduzir – da mesma forma que o que tem mão mais habilidosa também tem mais vantagens. Nesse cenário, poderíamos até imaginar o indivíduo carismático sobrevivendo sem ter uma mão! E um indivíduo com mão ser condenado ao extracismo e morrer mesmo tendo habilidades para plantar e caçar! O ambiente social que vivemos é tão ou mais importante que o ambiente físico em que vivemos. 

Contudo, não digo que somente a dependência do grupo explica como a nossa sociedade se organiza ou porque sentimos culpa. Veja as abelhas, elas tb vivem em grupo, mas os comportamento delas não são flexíveis; elas têm um papel fixo no grupo, e mesmo comportamentos complexos como a dança que uma abelha operária faz para mostrar a outras onde encontrou comida é intrísica, acontece sem necessitar aprendizado e é fixa, sempre seguindo as mesmas regras. Essa foi uma estratégia bem sucedida? Sim! Só que a estratégia evolutiva dos humanos foi diferente, focada em saber lidar com mudanças de forma muito rápida. Veja, existe um macaco chamado cuxiú, e existe um chamado macaco-prego.

Conta se que quando vc apresenta uma foto de uma cobra pra um cuxiú ele vocaliza alarme imediatamente, já o macaco-prego vai ignorar ou mais provavelmente tentar pegar na cobra. O cuxiú dificilmente vai morrer picado pela cobra, já o macaco prego tem mais chances porque ele tem que aprender ou por experiência ou por aprendizado social. Agora imagine que vc pegue uma população de cuxiú e uma de macaco-prego e os coloque em um novo ambiente onde só há comida diferentes do que eles estão acostumado, é muito mais provável que o macaco prego vá tentar comer algo enquanto o cuxiú morra de fome. O cuxiú tem uma estratégia evolutiva mais parecida com a das abelhas e o macaco-prego com a nossa. Ou seja, foi vantajoso que os humanos pudessem aprender como se comportar depois que nascessem, ao invés de ter ações e reações mais inxtríscas. Isso é verdade para reconhecer cobras, mas também é verdade para decidir se devo apertar a mão ou dar um ou dois beijinhos quando conheço alguém pela primeira vez.

A infância é uma fase de aprendizagem rápida, marcando a vida do indivíduo.
Foto: nappy.co

E é isso que quero dizer com somos biologicamente sociais, é mais do que dizer precisamos de um grupo, mas para afirmar que respondemos ao meio que somos inseridos. E a gente é incrivelmente bom nisso.

Mas pera, que lá vem mais biologia, toda essa flexibilidade tem um preço e um preço muito alto. Precisa se de muita energia para manter todas essas sinapses e comida já foi mais difícil do que é hoje *apesar de ainda ser muito difícil para uma grande parcela da população, mas isso é texto pra um outro momento. Então vale a pena gastarmos essa energia, mas o ideal seria gastar o menos possível. Como balancear? Vejamos, quanto tempo um macaco prego precisa para entrar em contato com o máximo de cobra que ele vai ver na vida? Se ele habita uma área de grande concentração de 3 espécies de cobras *isso é bem hipotético e que ele vai encontrar uma cobra por mês, então é bem provável que em, digamos 5 anos, já tenha aprendido quais as são as cobras e a evitar-lás, não? Ou seja, depois de 5 anos podería-se gastar menos energia, ele não tem mais necessidade de aprender!

Da mesma forma, quanto tempo um homem precisa pra aprender todas as regras sociais do grupo no qual está inserido? Timberg, o pai na etologia, fez um trabalho lindo que lhe rendeu um prêmio nobel; ele provou que gansos aprendem quem é a mãe ao nascer, mas se vc não mostrar a mãe logo que nascem depois de um tempo não serão mais capazes de aprender quem é a mãe!  Ora, parece que durante a evolução humana precisamos aprender a vida toda, mas há janelas, momentos que aprendemos com muito menos esforço. Por isso temos tanta dificuldade em aprender uma segunda língua se não aprendemos quando bebê! Há outros variáveis que nos deixam menos propensos a mudar com a idade, como por exemplo a propenção ao risco, que é menor quando ficamos mais velhos e também, pasmem, tem uma base evolutiva. Mas acho que esses exemplos são suficiente para eu finalmente chegar de novo ao ponto da nossa conversa: a culpa.

Pronto, todo essa “falação” para dizer sim, concordo; carregamos muitas culpas pela maneira que somos ensinados. E mais ainda ensinadAs; mas não é a escola, ou a mãe…é a sociedade. Quando falamos que temos determinado comportamento, temos um impulso em culpar a mãe, e depois a escola (pai nunca se culpa né? Se tiver sido presente ganha estrelinha), mas estes só tem um pequena contribuição. O tio que fala “essa menina vai dar trabalho”, a propaganda que só tem mulher branca, hetero, padrão europeu sendo objetificada, a transeunte que aponta o cabelo de uma mulher na rua, o transeunte que olha para a mulher e expressa desejo. Todos esses comportamentos, nos fazem: racista, machistas, sexistas, homofóbicos. E nos fazem sentir culpa. Culpa por ser estuprada, culpa por ser inteligente, culpa por ter um bom emprego, culpa por ser independente, culpa por dar de mamar, culpa por não dar de mamar, culpa por amamentar na rua, por não amamentar na rua, por amamentar na rua e cobrir o peito e fazer a criança passar calor, culpa por deixar com as avós, culpa por se sentir cansada, culpa por querer ter um dia só para ti.

Culpa. Não temos. Culpa se cria. 

Culpa, assim como racismo, machismo, sexismo, homofobia, se combate, se condena e se desconstroi. 

Amizade entre mulheres: pode e é bom D+
Foto: nappy.co

Você mulher, sabe o que fortalece muito? Grupo de apoio de mulheres. Sim, te ensinaram a ter culpa, e sentir culpada por isso *choque! E também a ter vergonha. E que mulheres são inimigas. Só que não. Nada me fortalece mais que as mulheres da minha vida, as quais sou muito grata. Procure seu grupo feminino, e feminista. Com vagina, sem vagina. Mãe, casada, solteira, capitã, menina bonita do meu coração.

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