Setembro amarelo

Há um constante embate aqui dentro de quem lhes escreve. Não que eu seja tímida, não que eu me envergonhe do que faço, ou sinta (mesmo que eu não concorde com tudo que eu faça ou sinta), mas ainda assim parte de mim quer o que é meu guardado. Ali, pra uma conversa de bar, quem sabe; mas definitivamente não assim na terra sem lei e de registro eterno chamado internet. 

Por outro lado, acho que compartilhar é um ato revolucionário. É gritar para o mundo (mesmo que minha média de leitores seja 5) que sou mulher, sou cientista, sou tatuada, pinto meu cabelo com 35 anos, que tenho sentimentos – às vezes nobres, mas na maioria das vezes apenas humanos mesmo. Que sou solteira, e “ainda assim” feliz, que sinto falta de alguém, que esqueço como escreve palavras (santo deus pq não consigo escrever corretamente cérebro? Sempre escrevo célebro..ou seria o contrário?). Dizer e mostrar que tenho dor e choro não me fazem mais fraca e que cometo erros não me faze menos inteligente. Que opinião forte não me faz menos feminina. E que ser feminista não me faz odiar homens. E por isso, compartilho. Talvez, mais aqui do que com pessoas que amo tanto, quanto minha marida.

Daí que este mês vem um compartilhamento bastante íntimo. Me intimida imaginar que alguém da sociedade primatológica do Brasil vai ler. Santo Deus! Não sou íntima deles, como sou de você que me lê; mas também não sou uma completa estranha como sou para você que um dia espero que me leia. E me pergunto, irão me chamar para uma colaboração se souber que sofro? Que levo fora? Que choro? Que falo alto as injustiças que consigo ver? * mesmo com o mundo me rebaixando e dizendo que é mimimi?

Tenho depressão. 

Medo de assumir e não me chamarem para colaborões. De não confiarem em mim indo ao campo no meio do nada para seguir macaco, *o que amo tanto, mas que é associado como difícil e como algo que lhe deixa no limite. Deixariam uma depressiva no limite? Medo de não me contratarem. Medo de não debaterem de igual pra igual. Medo de rebaterem meus argumentos com “melhor não discordar”.

Sabe porque tenho esse medo? Porque precisamos falar mais durante o setembro amarelo, e em outros meses também. Decidi enfrentar esse medo porque espero que cada vez menos pessoas tenham o sintam. 

Que as minhas dificuldades não sejam as dos que desejam trilhar esse caminho. Essa é toda a razão dos meus escritos aqui. 

Ato 1: Cada depressão é uma depressão. 

Ato 2: Esteja aberto a ajudar quem você ama.

Ato 3: Saiba quando e como sair da relação se a sua saúde mental está ficando debilitada ao apoiar o outro.

Ato 4: Um amigo não substitui terapia, nem remédio. Mas terapia e remédio não substitui rede de apoio.

Minha subjetividade como provavelmente a sua também é cheia de preconceitos. Demorei muito para tomar medicação. Não queria ficar “abobada”, não quer deixar “de ser eu”. Quando na realidade a depressão já tinha levado o meu eu. Eu era funcional, ia trabalhar, produzia, corria e ria em frente de quem quer que fosse. Mas não tinha vontade. Eu só fazia. Eu respondia ao esperado. E venhamos e convenhamos, como a gente é ensinado a isso não é de se espantar que eu tirava de letra. Talvez, você uma das 4 pessoas que me lê (sim, até esse ponto já perdemos uma leitora), tivesse ido ao bar comigo e nem imaginava que enquanto conversámos e eu ria, também planejava me matar. 

Com medicação, tô ótima. Claro cada caso é um caso, quem tem dificuldade de se adaptar com a medicação não está fazendo drama. Mas pra mim, foi super tranquilo. Tão tranquilo quanto o remédio pra cólica, esse que tomamos sem pensar e que depois de uma hora nem lembramos mais que tomamos. Eu, não deixei de ser eu. Eu voltei a ser eu. Talvez nada tenha mudado pra você, ainda trabalho, produzo, corro e rio na mesa do bar. Mas agora eu quero. Eu sinto prazer.

Minha terapeuta reconheceu que precisava de mais ajuda do que ela podia me dar, ela me indicou uma psiquiatra. Então, quando sua/seu amiga/o precisar de um psiquiatra, seja porque a terapeuta mandou ou porque ela/ele decidiu não diga que “só” terapia resolve, não mande fazer exercício. Ajuda a procurar um psiquiatra de confiança. 

Lembre-se:

1: Profissionais de confiança não vão lhe medicar pro prazer. Perca medo de psiquiatra.

2: Medicação não vai te deixar necessariamente “bobo” 

3: Terapia é uma parte importante, mas não necessariamente funciona sozinha, se você não é um profissional da área e nem a pessoa que está precisando de ajuda, não cabe a você medir a necessidade de mais assistência.

4: Ouvir, não é oferecer solução, principalmente se for auto-ajuda (mas talvez isso seja algo bem específico pra mim, odeio a ditadura do bem estar).

Por último, gostaria de dizer que estou depressiva. E que sou feliz. E que tem dias que tenho problemas no serviço, ou na vida pessoal, como qualquer outra pessoa. Que eu chorar não é sinônimo de crise. Que tomar remédio não cura a sociedade nem tornar sua vida em um conto de fadas. Que em certo aspecto estou mais saudável que muita gente não medicada e à estas indico: rede de apoio, terapia e medicação, se este for o caso, sem medo.

Termino esse texto dizendo que agradeço muito as pessoas maravilhosas que estiveram do meu lado na descoberta e diagnóstico em especial: Olívia, minha mãe e pai e marida.

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