Meu bem, “mulherzinha” não existe!

Recebi uma mensagem. Não me entenda mal, recebi uma mensagem de uma pessoa muito querida, muito querida mesmo. Mas…. *você sabe o que vem por aí, não? Sim, vou ser crítica sim!

Photo by Ihor Malytskyi on Unsplash

Enfim, recebi uma mensagem. Um amigo, e aqui é importante estressar o sexo e o gênero, “O” meu amigo me contou como ele tinha se envolvido em um relaciomaneto por 6 meses e que tinha acabado de acabar. Ele me contava que ela era muito ciumenta. Ela era muito grudenta. Ela era muito intensa. Ela queria que as coisas progredisse rápido demais. O áudio era focado nela, e a princípio um homem que conta um história focando na mulher me deixaria bastante favorável, só que não. Porque o áudio não era focado nela como uma parte da relação, ou na perspectiva dela – sugerindo empatia por parte dele, mas focado em como ela era “A” responsável. Os pontos negativos DELA que levou ele a terminar. No mesmo áudio ele também me conta sobre uma outra mulher. Sobre esta, sua outra ex, conta que graças a bipolaridade controlada tinham estabelecido uma relação de amizade. Você está ouvindo o mesmo que eu? A relação quando ruim é culpa dela, quando boa é graças à medicação. Naquele momento me lembrei de outros términos da vida dele. E lembrei de algumas amigas me contando das suas histórias nas últimas semanas. Os áudios delas, sem exceção, independente delas terem iniciado o término ou levado o pé na bunda, eram cheios de questionamentos como; “o que eu fiz”, “como eu poderia fazer de outra forma”, “será que errei?”, “tenho um dedo podre”.

Veja, mulheres não são perfeitas, homens não são demônios, mas se você gosta de me ler, ou se já recebeu meus áudios de 15 minutos já deve saber que acredito que a subjetividade é – e muito – construída socialmente. Toda essa história do meu amigo querido e das minhas amigas bucetudas molhadas é só mais do mesmo: a culpa é sempre nossa.

Bem, já que homens não são demônios, e esse em especial mora no meu coração, resolvi pegar na mão e irmos juntos no caminho pra fora da cavera e gravei: 

“Reparei que você tá sempre falando de como ELA teve esse ou aquele comportamento, mas já parou pra pensar que talvez essas ações só tenham ocorrido como reação a um comportamento SEU? Ou que talvez VOCÊ escolha os mesmos padrões comportamentais em diferentes mulheres?” *sim em capslook mesmo quer era pra dar ênfase e ser didática. 

Para qual ele responde: “Verdade, porque será que mulheres assim são atraídas por mim?”, veja porque ELAS SÃO ATRAÍDAS POR MIM?

Fiquei meio emputecida. Agora ao escrever estou rindo. Rindo em voz alta….e não sei o porquê.

Talvez eu saiba. Talvez eu saiba um pouquinho.

Photo by Matheus Ferrero on Unsplash

Esse amigo é um amigo da minha adolescência. Na minha adolecêscia lá no interior de São Paulo, eu não me encaixava. Eu me sentia sozinha. Não queria usar saia, batom, rímel, ou pentear o cabelo. Não queria ouvir que era fraca! Ah! Carregava de tudo no escoteiro! Não havia nada que um menino carregasse que eu também não o fizesse. Botava carão, e lidava com a dor nas costas depois. Não queria ir à casas noturnas. Odiava que homens fossem o centro da atenção da conversa. Eu não me sentia uma mulher. Não nos padrões esperados. Então nesse mundo binário: eu era homem. Me comportava como os meninos, me misturava no mundo deles. Contava as piadas que eles ririam – mesmo reprudizindo machismo. Me tornei a cool girl, mesmo só vindo a descobrir o termo mais de 20 anos depois. Eu me esforçava não para me descobrir e me permitir, mas para me encaixar onde eu sabia que não pertencia, mas me parecia a única opção que não fosse ser “mulherzinha”. Nunca me senti acolhida. Não verdadeiramente, tanto é que eles formaram um grupo: carcará. Fizeram tatuagem e tudo. Eu não fui convidada para fazer a tatuagem, mas podia participar do grupo de whatsapp. Era uma posição de mascote do time. A mina legal, que arrota e bebe cerveja, mas que não deixa de ser mulherzinha. De alguns planos eu fazia parte e deveria ficar feliz, e quando não fizessse deveria sorrir e aceitar afinal eu já estava ali na posição máxima que poderia chegar como mulher. Dia feliz foi o dia que sai do grupo de whatsapp. 

Foto by nappy.co

Rancor? Nenhum. Eu era só uma menina. Mas uma menina nesse mundo vira mulher. Vira forte, vira onça. Vira bucetuda molhada. Porque a gente aprende a se ouvir. A gente aprende a se encontrar. A gente aprende a se posicionar. A gente aprende a aguentar. Não importa, na cama, no fogão, na boieira do caminhão; ou na ciência, como eu. Pena tenho deles, que ainda não aprenderam a enxergar. Não me importa que não me vejam, mas sinto que não percebem a mulher da buceta molhada com quem dividem a cama, o trabalho, a jornada pro trabalho. Homem não é demônio, mas, infelizmente, são tão poucos os que conseguem parar de se ver como centro do mundo.

Feliz fico por aos 35 ser tão plena, tão mim. Feliz fico porque ao tentar ser menino, não me distanciei das meninas que dividiam comigo os acampamentos, os bailinhos e as aulas no SESI; porque estas meninas se tornaram mulheres da buceta molhada. Mulheres que eu amo, e que me inspiram. Tocando a própria firma de advogacia, por detrás do ministério, amamentando, ou resolvendo não amamentar, ah essas mulheres! E ao longo da minha vida, só mulherão do líquido da lubrificação ou da ejeculação – sério que não temos nome para? – foi adicionada! Meu deus! 

Foto by nappy.co

Se eu pudesse voltar e dizer algo praquela menina que não queria ser mulherzinha….eu diria: “meu bem, mulherzinha não existe”.

One thought on “Meu bem, “mulherzinha” não existe!

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  1. Muitas reflexões juntas! A que eu quero compartilhar é que atualmente os homens não “tomam atitude” e a mulherada está indo em busca do que querem deles. Eles se sentem violentados, abusados e “aquelas vadias de buceta molhada ” se jogando em cima de mim. “Elas são/estão desequilibradas e carentes” blablabla esse texto que já ouvimos. Mas quando rola sexo, eles ajaculam em 3min! E a mulherada, por carência, tem paciência, espera. Lógico que a mulher pede mais, ele nem deu tempo para ela gozar!!! Cara, surreal, porque eles pensam que elas pedem mais porque eles “são fodaaaa na cama”. Só que não!!! Você, mulher, já pensou nisso??
    Aonde eu quero chegar com isso? Nós, mulheres, ficamos com a fama de X Y Z, vamos lá tomar remédio porque a “desequilibrada somos nós” e na real eles não dão muito. Pára para refletir, por favor . Se o Min da Saúde der um vibrador a cada mulher, todas nós iríamos exigir muito mais dos homens, aí sim eu quero ver. Acho q esse discurso poderia mudar, mas eles precisam disso , né? Clube do bolinha e essas coisas.
    Obs: as palavras entre aspas são a reprodução do discurso, não que eu concorde e por isso entre aspas.
    Obrigada Mari pelo texto

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