Simples assim.

janela café clevelandEstá nevando e está frio. Estou em uma cidade chamada Cleveland. Nunca tinha ouvido falar. Não estava na minha lista de “must visit”. É pequena e até duas horas atrás não achava encantadora. Até 12 horas, não tinha me trazido nenhuma novidade.

 

Vim, e gastei. Gastei uma boa grana para estar aqui. Inscrição no congresso, hotel, avião, taxi, comida. Tudo do meu bolso. Para quê? Para fazer ciência.

 

Achei que ia sentar aqui, no café, em um domingo, sem almoçar, e trabalhar. Então resolvi procrastinar e escrever para o meu blog; blog este que é um projeto o qual procrastino a um mês. Na realidade um pouco mais de que um mês.

Então, imaginei escrever algo romântico; para combinar com esta vista que tenho: de neve por trás da janela. De flor e café na minha frente. Mas não. Não sei se sou romântica, às vezes acho que sou. Luiza, minha amiga diz que sou. Eu não sei. Me acho tão realista no meu dia a dia, que não sei se essa acidez da vida me permite ser romântica. Mas com certeza, já fui.

Fui mais romântica com a minha profissão do que fui na minha vida pessoal. Não liguei quando me pediram em casamento no castelo Neuschwanstein. Mas depositei muito mais expectativa que devia na minha relação com a minha orientadora. Minha mestre. Minha inspiração. Minha mentora. #SQÑ. E essa relação acabou mal. Muito mal. Mas esse texto não é sobre isso.

Esse texto era pra explicar porque gastei por volta de 4 mil reais para vir para uma cidade do qual nunca havia ouvido falar.

Eu li “O mundo de Sofia” e daquele dia em diante fantasiei essa imagem: eu, e minha mentora (sim terminando com “A”) discutindo ciência enquanto caminhávamos por um gramado verde, em um dia não quente, em um dia não frio. Respeito mútuo. Mentores reconhecendo o mérito dos seus pupilos e abrindo portas à eles.

Mas não foi assim.

Não é assim.

E demorou muito – muito mesmo – para que eu quebrasse esse castelo de vidro que criei ao meu redor. Começou com uma pequena infiltração (e não é quase sempre assim?) e quando a resistência do vidro falhou, a fratura se espalhou e em um segundo toda a redoma ao meu redor desmoronou revelando muito mais do que eu pudesse imaginar. Foi revelador. Foi assustador.

COMPETIÇÃO, EGO, OPORTUNIDADES GRITANTEMENTE DIFERENTES. ESTEREÓTIPOS, PRECONCEITO E RECONHECIMENTO NÃO VINCULADO AO MERECIMENTO.

Quem são os alunos de graduação no Brasil? E fora do Brasil? Quem são os alunos de pós no brasil? E fora do Brasil? Quem são os professores de instituições científicas no Brasil? E fora do Brasil? Quais são os critérios de inclusão?

Felizmente acredito que muito de vocês (se é que alguém lerá este post) sabem ao menos um pouco sobre as respostas, porque hoje falamos muito mais disso do que a 20 anos, do que a 30, do que a 40 então!!!

O cenário contudo tem mudado, rapidamente. Não estou defendendo que está melhorando, veja bem. Só quero dividir minha experiência. Apenas isso. Minha história não é nem de longe a mais sofrida, nem a mais fácil.

janela do hotel cleveland

Eu posso gastar 4 mil reais e ir para um congresso. Mas também não é que seja fácil.

 

Porque eu gastei 4 mil reais para estar em Cleveland?

Porque fazer ciência é sobre colaborar. E para colaborar você precisa ser lembrada. E para ser lembrada, bem, você precisa estar presente. Simples assim.

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