You

Já escrevi alguns textos. Péssimos. Confusos. Doloridos. E portanto, bem representativos. Enrolo para começar esse. Poderia escrever para meu blog. Poderia escrever um artigo. Poderia dormir. Mas a verdade é que devo. Talvez seja apenas mais um texto de baixa qualidade, impossível de ser lido. Talvez. Talvez isso seja o necessário para que minha alma se comunique. Preciso me ouvir. Preciso me encontrar. Preciso racionalizar e identificar. Preciso nomear. Quem sabe assim seguir em frente. Há mais de 3 anos você me deixou. E na minha imaginação há quase dois você seguiu em frente. Doi. Doi que você tenha seguido em frente. Não creio que me doa você ter seguido em frente porque quero estar com você, mas porque eu não segui em frente. Porque você me deixou. Reflexo dessa sociedade onde a rejeição é vista de forma tão cruel? Reflexo da teoria da perfeição que nós mulheres sofremos? Não sei. Provavelmente tudo isso e mais. Às vezes quero te namorar. Não acho que seja amor. Ou paixão. Acho que só é uma forma de não me sentir rejeitada. Ou de lidar com a ideia de que não sou suficiente. E quem é? E quem disse que relação deveria ser sobre suficiência? – E sobre o que deveria ser uma relação?

Já achei que sofri demais porque você foi tão intenso. Já achei que sofri demais porque você fez promessas poderosas que me iludiram. Já achei que sofri demais porque eu disse “é complicado” e você “é possível” e me deixei levar pela sua crença, e ao não me manter firme na minha, me culpei. Já achei que sofri demais porque eu estava num momento emocionalmente muito muito difícil. Já achei demais. E acho que é tudo isso. E acho que é mais que isso. Agora, identifiquei mais um achado. Você disse que me deixava por antecipar uma dor que estava por vir. Que minha NACIONALIDADE e que a minha CARREIRA iam nos causar problemas. Você me deixou porque sou brasileira. Porque escolhi ter uma carreira. Você quer alguém da sua nacionalidade. Você quer alguém que a “carreira” não esteja no caminho da sua. Você foi um canalha. Um preconceituoso. Um machista. Um egoísta. Você foi também pragmático. Você foi tantas coisas e ao mesmo tempo você não é nada delas. Você é uma boa pessoa. Como eu. Como eu, você é o mal e o bem.

Mas a dor de ser deixada por ter nascido em um lugar. Ah! Essa dor. Não se segue em frente dela. A dor de ser deixada por se tem uma carreira. Ah! Não se segue em frente dela.

Não demorei para seguir em frente de você. A dor de não de ter na minha vida não me acompanha há três anos. A dor que me acompanha é a dor do preconceito, do machismo. Essa mesma que acompanha a tantos e tantas todos os dias. Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias. Quando no chá de revelação apresenta se rosa X azul. Quando se fura a orelha do bebê. Quando se coloca um vestido. Quando se ganha uma boneca. Quando se coloca no balé. Quando tá tudo bem não curtir matemática. Quando se ajuda sua mãe no almoço enquanto seu pai e irmão assistem ao futebol. Quando se condena a masturbação feminina, mas se comemora o garanhão.

Eu não segui em frente dessa dor. Nem quero. Quero aprender a lidar com ela. Quero que ela pare de me dilacerar. Quero que essa dor aguda cesse. Mas a dor, a dor é minha. Você não pode tirar ela de mim. A sociedade não pode tirar ela de mim. Claro que é melhor que as vítimas acreditem que dificuldades geram aprendizados. Claro que é melhor que as vítimas acreditem que tudo tem um porquê. Claro que é melhor que as vítimas acreditem que elas são culpadas; que se não segui em frente é porque EU seguro a dor. Porque EU estou errada. Porque EU não consigo entender que você foi segundo você mesmo, o herói que não poderia suportar que eu fizesse concessões. Não preciso de nenhum homem branco se passando por herói quando na realidade rouba me o direito de tomar decisões.

Não tire essa minha dor; porque esta dor é minha. Ela me flagela há três anos. Me relembra de você. Não você indivíduo; mas você. E você. E você também. Leitor. Pai. Cientista. Cidadão. Mãe. João e Maria. E Antônias e Josés. Você. Você. E eu. Disseminamos a todo tempo, preconceito. Preconceito. Cor. Classe. Nacionalidade. Gênero, ou a decisão de se negar o gênero. Tudo e qualquer coisa.

Deixe me com minha dor.

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